Um passeio pela história de vida do médico Oswaldo Kersten

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Conforme os anos passam e a vida segue, aprende-se cada vez mais o real significado de nostalgia. Há quem diga que o sentido dessa palavra é melancólico, mas seu conceito também serve para denominar aquela sensação gostosa de recordar momentos da infância, dos brinquedos, do cheirinho apetitoso do bolinho que só a avó sabia fazer, do campinho de futebol que servia de cenário para jogos despretensiosos e tantos outros lugares que acabam se perdendo ou sendo ocupados por condomínios, estacionamentos, shoppings e outros empreendimentos da vida moderna.

O mundo que é observado pelas janelas das casas e escritórios tem um sentido diferente para cada geração que o espia. Alguns olham com indiferença, outros nem enxergam. Há os que admiram as belezas escondidas em cada canto das cidades, têm aqueles que se sentem seguros e livres ou até mesmo sufocados pelo fluxo contínuo das cidades que nunca dormem. Entre tantas pessoas e tantos lugares, encontram-se personagens como o médico que há cinquenta e três anos atua em proctologia. Dr. Oswaldo Kersten se sente acometido pelo sentimento de saudade e nostalgia em sua forma mais pura, quando passa por locais da capital catarinense. Para outros olhos, são apenas ruas e prédios, já para ele aqueles mesmos caminhos guardam pedaços de sua infância e boas lembranças de uma das melhores épocas da sua vida. Filho de imigrantes alemães, Oswaldo nasceu na Ilha em oito de setembro de 1935, na Rua da Constituição, hoje em dia conhecida como Rua Tiradentes, importante via da cidade.

Durante sua infância até o início da sua adolescência, pôde acompanhar de perto o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, por intermédio dos jornais e telegrama, que buscava em uma popular empresa inglesa. “A Rua Tiradentes é como se fosse a continuação da Rua Felipe Schmidt, do outro lado da Praça XV. Naquela época, a Western Telegraph Company, vulgarmente conhecida como Cabo Submarino, localizada nas redondezas, era onde eu ia buscar jornais e revistas em português e assim podia me informar sobre mais detalhes da Segunda Guerra, já que não havia muitas fontes sobre o tema”, conta. A Western foi responsável durante 99 anos pela operação e manutenção dos cabos submarinos que partiam da agência localizada na Rua João Pinto, passava pela Costeira, seguia até a praia do Campeche, onde havia uma pequena estação. De lá, os cabos submersos seguiam até a cidade de Santos (SP) e outro para Rio Grande (RS), e se espalhava para a América do Norte, Europa e África.

Atualmente, a empresa deixou como herança o relógio de fabricação inglesa, que pode ser conferido na saí- da norte do Mercado Público de Florianópolis, que não marca mais as horas, porém registra um grande momento histórico que muitas pessoas desconhecem. Além da diferente busca pelas informações que seu Oswaldo vivenciou, ele também pode aproveitar com muito afinco seu amor por diversos esportes, que eram praticados nas praças, ruas e praias da capital. “Os meninos do meu grupinho se divertiam jogando futebol no campinho, mas no lugar da bola tradicional utilizávamos bolas de meias que nós mesmos fabricávamos, com as meias de sedas das nossas mães e avós. Os campeonatos eram realizados em uma pequena praia localizada ao lado do Forte de Santa Bárbara, hoje ocupada pela Fundação Franklin Cascaes”, relembra.

A paixão por futebol também se estendia para a modalidade de botão, que divertia Oswaldo e seus colegas nas ruas do município. “O jogo de futebol de botão era muito difundido. Até hoje lastimo enormemente como perdi os meus times, geralmente feitos com os enormes botões-cartola de sobretudos dos idosos”, relembra. Bastante tradicional na Ilha, o remo também fazia parte da juventude ativa que Oswaldo vivenciou. Esporte iniciado em 1915 em Florianópolis, a modalidade teve sua época de ouro na década de 50, quando era popularmente aclamada na região.“Onde hoje existe o terminal urbano de Florianópolis ficavam os clubes Aldo Luz e Martinelli. O outro clube era localizado no lugar do terminal rodoviário Rita Maria. Os campeonatos eram um dos acontecimentos sócio-esportivos de maior realce na sociedade florianopolitana. Também competiam clubes de Blumenau e Joinville aqui na cidade. Esse era o assunto do dia, as discussões eram acirradas acerca das disputas e as torcidas eram frenéticas com ou sem as apostas. Os vencedores, verdadeiros heróis, eram ovacionados até com exagero, recebendo medalhas no pódio por suas vitórias”, relembra. Embora não tenha mais cunho popular, Florianópolis continua sendo referência nessa modalidade. A capital possui três clubes em funcionamento, Martinelli, Aldo Luz e Riachuelo que acolhem aproximadamente 250 atletas e funcionam como uma fábrica de talentos – 60% da seleção brasileira é composta por catarinenses da Ilha e região.

Ociosidade realmente não cabia no dicionário de Oswaldo. Quando não es- tava se distraindo com jogos de bolinhas de gude, feitas de vidro, ele e seus colegas jogavam basquete e apostavam corridas de 100 e 200 metros no estádio da Federação Atlética Catarinense, onde hoje funciona o Instituto Estadual de Educação (IEE). “Fomos felizes quando jovens sem precisar utilizar bebidas alcoólicas ou drogas. Infelizmente esses tempos não vol- tam jamais. É a roda viva”, pondera. Essas são algumas das lembranças que surgem como nostalgia quando Oswaldo passa pelas ruas do centro de Florianópolis. Não importa que aterrem as praias, asfaltem os campos ou derrubem as fábricas – as recordações que um homem viveu ninguém é capaz de apagar. As experiências e lembranças permanecem flutuando, livres e quase imperceptíveis em todos os lugares. Quem da a vida para as cidades são as pessoas, e o mesmo acontece com o passado e a história, que se compõem a partir do conjunto de vivências interessantes e muitas vezes desconhecidas, mas ainda assim, belas por sua simplicidade.

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